A forma como a palavra antigamente vem à tona tão fácil é uma prova de que a velocidade do tempo venceu (ou pelo menos está vencendo). Em quase todos os dias deste ano tentei me convencer de que ter 25 anos (quase 26) não é nada. Acima de tudo, tento me convencer de que não é de modo algum estar velho e que há muita coisa pela frente. Ao passo que não me suporto com o tempo ou não suporto como o tempo está cravado em mim. Tudo cansa, vence e passa fácil demais. Onde estava há quatro, cinco, seis, sete anos críticos da sua vida? Quem morreu e quem sobreviveu destes ou daqueles? O que de você sobreviveu ou morreu na torrente inelutável da transição? Das mais simples perguntas às respostas, a análise final não poderia ser outra: a alta velocidade do tempo venceu. Afirmar que não podemos ser como antigamente é a comprovação de que sim, o tempo venceu. Mas isso não é de espantar. As coisas se transformam. A questão é o tempo que elas levam para isso. E, pior, quais os rumos que elas tomam. Tem horas que tudo lhe ultrapassa. E isto não é uma nostalgia de tempos ótimos em sua totalidade existentes num passado idílico que, agora, estão degradados em um presente com alta capacidade degenerativa. Embora a sombra de um passado tenha cravado linhas incontornáveis nos cômodos da memória (parece que a vida não poderia subsistir sem passar pelos mesmos espaços e que tudo teria que ser conservado por uma completude jamais existente). Por que teria que ser diferente? Eu não suportaria ter que afirmar uma coisa destas – não suporto. Pura hipocrisia, para variar um pouco do curso natural. Como pensar de modo diferente se todas as exceções de tudo que estabelece recaem sempre em si mesmo? Já sentiu na garganta aquela voz interrompida que sabe qual é o problema que você não enuncia? E sempre, o problema é claro: mistura de culpabilidade e vitimização singularizadas em um mediador patético. Sente que merece e não merece os traçados trilhados, o presente vivido e que o futuro não está pronto para acontecer sem que tudo seja restabelecido ou que de fato ele nem chegue a existir. É uma simetria estranha. E tento me convencer com todas as forças possíveis de que tudo não é uma nostalgia! Uns diriam que é como se importar, querer saber, ter vontade de falar, mas não mover um átomo em busca de qualquer um destes objetivos. Por quê? Porque você não merece. Mas se prepara para a pergunta: saberia qual o peso que o réu confesso e arrependido carrega todas as manhãs quando acorda e não escuta nada além de um silêncio distante de uma voz que costumava ser sempre presença constante? Com o discurso mais normativo posto na boca dos libertários e conservadores plenos de ontem, hoje e amanhã, a resposta seria: agora você transforma tudo como se o culpado fosse inocente. É claro que inocência é um termo que não entra nestas questões. Qual seria o próximo passo para fora destes jogos em que tudo se transforma em uma trilha estranha de entrar e não participar ou sair e se arrepender? Exclama com o peito cheio de coragem que nunca mais existiu: Deixa tudo passar! Deixa tudo em paz! Deixa tudo para trás! Deixa tudo que sempre quis e não deixe de pensar que isto foi algo útil! E assim será o regenerado. Alívio do peso? Melhor: alívio do fardo que é na vida dos outros? E, talvez, tudo se fará como se não tivesse existido. Todas as memórias péssimas estarão adormecidas num leito suave e longínquo. No vocabulário mais atualizado e sem a ironia de fazer-se verdadeiro: elas serão a fêmea leprosa sem cuidados, caindo aos pedaços, arrebentada pela incapacidade de mais um passo, procurando por péssimas construções de si mesmas contra o abuso de um dos machos interventores da matilha de homens gananciosos e sem cordão umbilical que as recapturam e expõem nas entradas e saídas de suas vias mais vis, com o intuito apenas de fazer sofrer o maior número de pessoas que conseguir. Fugir é impossível. Mas a memória continua ali. Instalada, à beira de uma oportunidade para revelar qual é sua verdadeira aspiração ou se ela existe mesmo. É como acordar de um sono terrível. Parece uma digressão sem fim e com múltiplos propósitos que não cabem em caixa alguma e que não tem mais lugar para existir. Não teria espaço nem mesmo aqui para isso. Não teria nem você que esqueceu as muitas vezes em que já abandonou aquilo que hoje se esbalda, mergulha a cara, e se entope até que as artérias e o estômago não tenham mais espaço para circulação. Essas lembranças poderiam ser uma forte arma se eu fosse um grande atirador. Uma grande demonstração de vulnerabilidade e orgulho que, apesar dos constantes gritos, era algo escondido, emudecido pela força não querer ao menos tentar compreender. E, ao final, a vitória da obviedade é escandalosa e sem direito a apelação: Não dá para ser como antigamente. E, em poucos minutos, o que era ressentimento e culpa vira algo como ódio e aversão – sem um objeto pronto. E o que era amor continua sendo algo como o amor – esse ainda tem seus vínculos. Sente a falta – em escalas variadas e radicais: dos mais benéficos aos que trazem mais malefícios a qualquer tipo de saúde. Mas não quer mais a presença. São os mesmos jogos sempre, como não percebê-los? Estarrecido e um pouco atordoado, evita as conversas sobre o que o inquieta. E lembra de que, depois de todo o estardalhaço – com presentes voando e posições consolidadas, como numa família de casal divorciados e com filhos, em plena guerra no período natalino – nem sequer se despediu! Para piorar, as crianças já tomaram partido: hoje é só mais um repositório de ódio infantil! Esquece. Esquecer é a melhor coisa a ser feita. Como um burocrata atrás da mesa revelando todos os esforços que fez para poder aceitar a sua presença por mero favor político, mas que, agora, essa aliança infrutífera não tem como continuar. Conforme ia dizendo, esqueça os presentes, os suportes, os soluços, os entraves, os romances, as terapias, as paranoias, os choros, as viagens, as malas, os fins, os desesperos, os apoios, as manhãs, as tardes, as noites, as navalhas, os escritos, as conversas, a mais que perigosa paixão incondicional e tudo mais que conseguir lembrar... Esqueça, porque, enfim, para bem ou mal de todos os envolvidos em histórias de todos e de ninguém – como em conversas dissonantes e justapostas de qualquer aglomerado ruidoso –, Não dá mais para ser como antigamente e, talvez, quando alguma luz de sanidade lhe bater à porta em pleno sol do meio-dia, nem queira mais que isso aconteça. Assim, como um ser na plenitude de sua postura lúcida, poderei ver que aquilo que me marca não é somente a sequela, a cicatriz, o trauma, e, sim, um apetite insalubre pelo que escorre – como o tempo em sua velocidade mais violenta, catalizadora das perturbações.
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