quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Memória é Redução

Então você mentiu pra mim durante todo esse tempo? E por qual razão ainda pensa que aguentei tudo isso? Eu não fazia ideia... Nem eu, e às vezes pensei que não daria conta. E quem dá? Vida dupla, tripla, ninguém aguenta. Da primeira vez veio o dinheiro, pouco, mas dinheiro; da segunda vez foi pura covardia e vontade de não desapontar. E agora, olha pra mim? Me ouve e me aguenta? O sono não vem. Na fresta de um amanhã que vê acordar, ninguém sabe as confissões angustiantes. Angústia? Que porra você pensa que é pra me dizer sobre angústia? Até parece que algum de vocês sabe o que é isso...
Uma vida sem paradeiro... o não pertencimento tão clichê daquele que vai embora de casa e que é identificado em qualquer conversa ou nota do cartão de crédito doado pela família. Mas aqui não tem espaço para velhas parábolas de filhos pródigos e famílias carinhosas e abonadas. Quem mais suportaria esta ladainha? Seu pai já lhe pregou em algum momento que sua vida estaria fadada ao fracasso. E é muito fácil que ele esteja certo. Ah, tá bom, outro discurso tão conhecido: culpe seus pais, o espaço perfeito para um expert tão oportunista quanto deogróide dizer "Freud explica". E quem aqui está culpando algum pai? Estou apenas constatando uma "premonição" realizada. Não venha com esse papo de premonição e o caralho a quatro. Aquelas foram palavras que qualquer pessoa bêbada pronunciaria em qualquer oportunidade e você a transforma num livro sagrado.
Encosta a cabeça no travesseiro, fecha o olho e dorme. Se fosse assim tão fácil, se não tivesse sonhos de escritas sem fim. Pressão não é nada, e você não faz nada. Nisso tem razão: eu acredito que não faço nada. Mais duro que a sua argumentação, só sua tentativa de uma sensibilidade... Mais um ponto. Suas figuras não voam alto, a pobreza discursiva que você alega no apontamento alheio, o invade e domina sem precedentes... Tudo bem, me rendo sob essa alegação. E quem aguentaria? Velhas figuras que nunca dei valor me batem à porta e o trauma de algo que não vivi me força a criar coisas que não senti. Salgados estragados, carros em contramão. Logo se vê que suas figuras são realmente podres. A sua realidade é tão tangível e tão pobre quanto àquela que você acusa. Mas eu nunca acusei... ou acusei? Como não? Um sem número de vezes... não foge de uma discussão, não cala sua maldita boca.
"Precisamos conversar"... O temor de uma relação desgastada e de um futuro tão podre quanto o presente. "Mas isso é normal, espera só até...". Tão manjada quanto essa frase só os charlatães que não param de pronunciá-las (e pra isso eu nem preciso ficar gastando horas pra explicar que nada é "normal" assim). Eu queria mais. Eu sempre quis mais... e colecionei todos os fracassos desses desejos. Colecionei todas as barreiras e todas as desistências. Um merda na parede que se revela numa fila, por que não numa madrugada? Quase isso. E alguém ainda disse que o café poderia estar por aqui. "Expresso por favor, vamos tomar café de verdade... ou somente um chá importado", logo você estará assim, com toda essa petulância e esquecimento.
Silêncio.
Talvez eu tenha lutado comigo mesmo todo esse tempo. Talvez eu não tenha tido dinheiro. Talvez as limitações desse mundo me mostraram que meu ódio é só mais uma arma sem fim de algo que estou fadado sempre a fracassar. Até parece, né? Não me fale "até parece" nunca mais, porque não sei se fiz parecer óbvio (pelo jeito não), isso não me satisfaz. Isso, ao menos até agora, apenas me apavorou em ser mais um num terno-gravata a usar da minha caneta pra julgar. E quem não faz isso? O poder é insuportável...
Angústia de não ter e ser aquilo que sempre sonhou? E esses desgraçados ainda me dizem que ter não é ser... Chuta a porra da bola. Chuta! Cinquenta minutos. Um tempo daquela partida que é, mais que tudo, o palco/metáfora de seu cotidiano. Alívio? Nenhum... Ao contrário... Esforça pra jogar fora então. Não sei se vale a pena. Não agora. "Precisamos conversar"...



Com toda grosseria que ainda me resta, só te digo que esse mundo foi feito pra te foder. E (podemos dizer que sua maior tristeza é que) não há eufemismo que o livre dessa miséria.

Nenhum comentário:

Postar um comentário